O Método Montessoriano – Como estimular o desenvolvimento natural do seu filho

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Vamos falar de espaço. Existem milhares de formas de se interpretar, utilizar e viver o espaço. Em arquitetura estudam o que existe para além do projeto. É a valorização da rotina de cada indivíduo em conjunto com as suas necessidades, limitações físicas, psicológicas e sociais. 

O método montessoriano aborda este assunto dando especial atenção à autonomia e desenvolvimento. Um espaço deverá oferecer a liberdade com limitações de segurança para um determinado indivíduo. Deste modo abordarei o tema focado em espaços para crianças, mais especificamente o seu ambiente mais próximo, o quarto. 

Este método foi desenvolvido pela médica e pedagoga Maria Montessori em 1896, quando se formou em Medicina em Itália mas não podia exercer a profissão por não ser permitido que uma mulher examinasse o corpo de um homem. Deste modo e  com base num estudo profundo, pesquisas científicas sobre o desenvolvimento infantil, foi aperfeiçoando as suas experiências em observação de crianças com necessidades especiais, bem como as crianças com desenvolvimento normal.

Cada criança tem o seu tempo de reconhecimento e aprendizagem, que deverá ser respeitado tendo em consideração as próprias aptidões que já se vão compondo logo na primeira infância. É importante observar as limitações de cada uma delas individualmente e cabe aos profissionais serem criativos no momento de aplicação do estudo em cada espaço.

No método montessori a criança é o centro e, portanto o professor é apenas um acompanhador do processo de aprendizagem. O mesmo deverá acontecer com os pais “acompanhador guia, orienta, ensina e aconselha mas de modo algum deverá impor ou forçar o que será aprendido”. O método abre uma janela para muitas discussões pois opõe-se aos métodos tradicionais que normalmente não respeitam as necessidades e os mecanismos de desenvolvimento evolutivo natural de uma criança. É desta forma citado como método da escola moderna ou movimento das Escolas Novas. Tem especial destaque nos espaços de creches e jardins de infância. 

Mas como poderíamos aplicar o método na nossa casa? 

O espaço destinado à criança deverá ser dela e para ela! Isto quer dizer que até a criança começar a andar o seu quarto é criado segundo as necessidades dos pais e não da criança. O berço passa a ser um elemento inútil pois a criança não consegue entrar nele sozinha. Lembre-se sempre que o princípio básico é a autonomia e a partir do momento em que a criança começar a andar ela torna-se autónoma até certo ponto e no seu espaço deverá conter todos os elementos de seu uso ao seu alcance de forma cuidada. Claro que, também podemos trabalhar isso antes da criança andar, contudo algumas características podem tornar-se desconfortáveis para os pais uma vez que dão maior utilização ao espaço nesta fase.

O ambiente deverá ser criativo e o mais didático possível para o seu “inquilino”. Alguns elementos deverão ser inseridos gradualmente de forma que acompanhe o processo evolutivo de desenvolvimento e aprendizagem. 

A educação montessoriana tem os seus princípios divididos em 7 grandes pilares:

1 – Autoeducação 

Capacidade inerente da criança de querer aprender e descobrir tudo o que a rodeia. O método cria ambientes propícios à curiosidade para novas descobertas respeitando o seu ritmo e interesses.

2 – Educação cósmica 

Cosmos significa ordem e trás consigo a capacidade de compreender o sentido da organização, desta forma, as coisas deverão ter os seus lugares próprios para que a criança compreenda o papel fundamental que desempenha no seu próprio espaço, desenvolvendo assim, de maneira criativa e consciente o seu papel no mundo que a rodeia.

3 – Educação como ciência 

O método montessoriano baseia-se na observação dia após dia da aprendizagem e resultante na eficiência do trabalho desenvolvido com base na observação, hipóteses e teorias para compreender a melhor forma de ensinar. 

4 – Ambiente preparado

Local onde a criança desenvolve a sua autonomia compreendendo o seu espaço, que deverá atender às suas necessidades psicológicas e biológicas. Mobiliário e atividades adequadas são fundamentais para que a criança possa ter ao seu alcance o que poderá utilizar no espaço.

5 – Adulto preparado

É o nome dado ao profissional que auxilia a criança em seu desenvolvimento completo. Este deverá conhecer cientificamente todas as fases do desenvolvimento infantil, lançando mão de todas as ferramentas educativas cientificamente comprovadas em sua eficiência para a sua aplicação.

6 – Professor acompanhador

Na escola Montessoriana o professor tem o papel de guia e acompanhador do desenvolvimento da criança de maneira que este seja estimulado sem imposição 

7 – Criança equilibrada

Todas as crianças expressam de forma verdadeira as suas características inatas. A criança deverá desenvolver-se de maneira natural fazendo uso correto do seu ambiente preparado e com o auxílio de um adulto. Deve-se cultivar o gosto pelo silêncio, trabalho e pela ordem. Estas características se desenvolvem entre os zero e os seis anos de idade.

Com base nestes princípios nós profissionais da arquitetura estudamos cada indivíduo e extraímos o máximo de informações possíveis para que possamos desenvolver um projeto, um ambiente especial e particular, planeado para que seja utilizado de todas e da melhor forma possível. 

O exemplo é genérico é direcionado a uma criança de 1 a 3 anos.

Alguns elementos importantes para que qualquer pessoa consiga minimamente contemplar e aplicar no ambiente do seu filho:

Espelho: Deverá ser espelho acrílico por segurança e deverá ser adaptado de forma horizontal na altura da criança. Se olhar e observar as formas do seu próprio corpo ajuda a criança a desenvolver a noção de espaço e identificar o que ela é. 

Barras de apoio: excelente para que a criança comece de forma lúdica perder o medo de ficar de pé e começar a andar. As barras funcionam como um estimulador a perda do medo de se movimentar de pé e favorece a auto confiança.

Cama: Deverá ser o mais baixa possível de maneira que a criança possa avessa-lá sozinha em segurança, bem como poder sair dela. O ideal é um colchão de formato quadrado e o seu entorno sempre ser forrado de piso emborrachado para evitar acidentes.

Prateleiras: Deverão ser fixas no piso ou parede na altura da criança para que possa identificar onde ir buscar seus objetos e compreender o lugar das coisas. Deve ser estimulado que a criança também guarde de volta o brinquedo que retirou.

Roupas: Quando a criança ganha autonomia para caminhar, deverá ser estimulado o ato de vestir e despir, deste modo, deverá ter sempre uma muda de roupa escolhida é separado para que ela saiba o que deverá vestir e onde ir buscar o que está preparado para vestir. É ideal que com o passar do tempo possa ser adicionada mais variedade de peças, proporcionando assim a intenção de que a criança comece a escolher a sua roupa.

Brinquedos: os brinquedos nesta fase deverão ser estimulantes e com características que desenvolvam a capacidade motora fina da criança que vai sendo substituído gradualmente por novos elementos para as idades seguintes, considerando o grau evolutivo de cada uma delas. Existem inclusive inúmeros jogos e brinquedos caseiros que podem estimular a criança, pois nesta fase elas muitas vezes se interessam por objetos do nosso uso cotidiano ao invés dos brinquedos tradicionais. Vale ser criativo.

Em resumo, o auxílio de um profissional é importante para mapear toda a movimentação da criança no seu espaço de forma mais cuidado, contudo é também possível através de muito carinho e observação que os seus pais criem esse ambiente cuidado que proporcione atividades lúdicas e muito conforto para os seus pequenos. Com frequência os pais de primeira viagem idealizam quartos de sonho para os seus filhos mas nem sempre é algo que irá deixar a criança feliz e se sentir livre e usuário do seu quarto. Os itens podem ser bem escolhidos e a um custo extremamente acessível. 

Desejo com carinho ter ajudado com as dicas e muito sucesso na longa jornada de acompanhador e guia.

Patrícia Beja
Arquiteta urbanista
designer de interiores.